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A cachorrinha


Chile, 11 de setembro de 1973


Nessa data o General Pinochet liderou um sangrento golpe militar, implantando uma ditadura que durou 17 anos, desencadeando uma violenta repressão.


Nos dias que se seguiram ao golpe, quase todas as embaixadas de Santiago ficaram lotadas de exilados políticos que haviam se refugiado no Chile e também de companheiros chilenos, que procuravam fugir da repressão.


No dia 17 de setembro fui preso, após policiais da ditadura invadirem minha casa, fato que é narrado em meu livro Tempo de Resistência.


No dia 19 entrei na Embaixada do Panamá, com Beti, minha então companheira, Tico e a valorosa camarada Encarnación Lopes Perez.


O local estava repleto de refugiados, cujo número começou a aumentar nos dias subsequentes, até que o embaixador panamenho fez gestões com os membros da ditadura para que fôssemos transferidos a uma casa maior.


Na embaixada encontramos diversos companheiros, que partilhavam da nossa situação.


Poucos dias depois, entrou na representação diplomática uma família de refugiados brasileiros, Vagner, Sônia e Dorinha, com 8 anos e que havia ido para o exílio com 1 ano e 6 meses.


Entrou também, com eles, Matilde, a linda cachorrinha que era o xodó da menina.


Ficamos 20 dias na embaixada, até que a ditadura chilena nos desse o necessário salvo-conduto para que pudéssemos deixar o país.


Todos os refugiados na embaixada panamenha iniciamos os preparativos para a viagem, que deveria acontecer dois dias depois.


De repente, um problema.


E Matilde?


A família dava como certo o embarque dela junto com todos nós.


O embaixador do Panamá também se afeiçoara à mascote de Dorinha e disse que seu país ficaria honrado em recebê-la como exilada política.


Quando o embaixador entregou aos representantes da ditadura a lista dos viajantes, constava o nome da charmosa cachorrinha.


Entretanto, para indignação de todos, a ditadura de Pinochet vetara o nome de Matilde para viajar ao Panamá.


Revolta geral e o embaixador panamenho disse que insistiria mais uma vez para que aceitassem nossa mascote, não sendo, porém, acolhida sua postulação.


Revolta novamente entre todos nós. Vagner e Sônia, com lágrimas nos olhos, explicavam a situação a Dorinha, que já ouvira rumores a respeito do veto.


Na conversa com os pais chorava copiosamente, inconformada em deixar sua companheira, pranto esse que a menina não parou de derramar.


Tristeza geral na embaixada.


Nesse momento, aproximou-se de Dorinha e de sua família o cônsul panamenho, que se propôs a adotar Matilde e cuidar dela em sua casa.


Assisti a essa cena com um nó na garganta, que não passava.


Olhei para Dorinha e Matilde uma vez mais.


Depois, fui para um canto no quintal da embaixada e chorei.



Leopoldo Paulino

 
 
 

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